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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Subsistema ACDH Desenvolvido no Brasil Pode Ser Qualificado, Se Aprovado o Satélite Amazônia-2

Segue abaixo uma notícia publicada na edição de nº 43 de dezembro de 2015do “Jornal do SindCT”, destacando que Subsistema ACDH pode ser qualificado, caso seja aprovado o projeto do Satélite Amazônia-2.

Subsistema ACDH Pode Ser Qualificado,
Se Aprovado o Satélite Amazônia-2

Construção do LABSIA, parceria INPE-DCTA, viabilizou salto tecnológico

Shirley Marciano
Jornal do SindCT
Dezembro de 2015

O país está prestes a concretizar um grande feito na área espacial: qualificar o Subsistema de Controle de Atitude e Supervisão de Bordo (Attitude Control and Data Handling, ACDH).

Brasil está hoje prestes a concretizar um dos maiores feitos de desenvolvimento tecnológico na área espacial: qualificar o Subsistema de Controle de Atitude e Supervisão de Bordo (Attitude Control and Data Handling, ACDH). Para chegar lá, será necessário que o governo federal dê aval à construção de um satélite genuinamente brasileiro, o Amazônia 2 — e, assim, finalmente, seja testado em voo o resultado de uma pesquisa de anos, que exigiu dedicação e perseverança, pois o cenário da pesquisa espacial sempre passou por muitos altos e baixos com relação a investimentos e continuidade dos projetos satelitais. O

ACDH ganha lastro porque no mundo não chega a dez o número de países que detêm essa tecnologia. Fundamentalmente, trata-se de um subsistema sensível, porque tem uso dual: serve para lançadores e satélites, mas também para armamentos, como mísseis teleguiados. Tecnologias que possuem essa peculiar natureza acabam sofrendo restrições de outros países, como, em especial, o International Traffic in Arms Regulations (ITAR), a legislação norte- -americana de controle de armamentos.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) espera a aprovação do Amazônia- 2 para poder embarcar os seus experimentos. Se tudo der certo, o país poderá dar esse importante salto tecnológico na área. “Estamos aguardando aprovação do Amazônia-2, totalmente brasileiro, mas temos expectativa de lançar também o satélite científico Equars (2018/2019)”, declara Leonel Perondi, diretor do INPE, ao Jornal do SindCT. Ele acredita que mesmo em um cenário de crise é necessário dar continuidade às atividades, porque paralisar pode significar perdas em parte do que já se avançou.

“É preciso seguir e dar passos mais ousados”, sustenta Perondi. “Houve diversas iniciativas no passado, sobretudo com a criação do CTA (depois DCTA), que trouxeram bons e importantes resultados, como a indústria aeronáutica. Numa época em que ninguém imaginava que tanta gente utilizaria avião, alguns visionários foram lá e fizeram, e era um período muito mais difícil”, relembra, referindo-se ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial.

“Hoje o país colhe excelentes resultados industriais por meio da Embraer. Acredito que a relação com os satélites deveria ser exatamente a mesma”, explica o diretor do INPE. O Projeto de Sistemas Inerciais para Aplicação Aeroespacial (SIA) é uma das grandes iniciativas no sentido de trazer esse desenvolvimento ao país.

Essa pesquisa começou em 2002 com o Laboratório de Simulação (LabSim), mas foi com a construção do Laboratório de Sistemas Inerciais (Lab- SIA), em julho de 2013, que se viabilizou um importante instrumento para fazer avançar as pesquisas na área. O próprio laboratório incorpora diversos desenvolvimentos. Não se trata somente das instalações físicas, mas de todo um complexo que permite testes, simulações e o próprio desenvolvimento do subsistema. O SIA está sob a coordenação do DCTA, em parceria com o INPE.

Telemetrias

“Acredito que estamos bem avançados. Agora falta qualificar o subsistema em voo. A minha parte é eletrônica do computador de bordo e os softwares, mas há vários outros itens que compõem o ACDH, e cada qual tem uma função que, por sua vez, é coordenada pelo computador através de um software específico”, ressalta Ronaldo Arias, servidor do INPE e mestre em Ciência Informática pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

Ele explica que o ACDH tem a função de corrigir a posição do satélite (atitude), porque todas as partes têm uma posição pré-definida. “Os painéis solares, por exemplo, precisam estar voltados para Sol para gerar energia; e as câmeras, para baixo, para capturar as imagens da Terra”, no caso de satélite de sensoriamento.

É também função do subsistema o controle da posição do satélite em órbita, porque ele tem uma tendência de cair e reentrar na atmosfera da Terra com o passar do tempo. Perondi observa que o controle de órbita é realizado em solo, através das estações terrestres, que recebem as telemetrias (dados sobre as posições do satélite no espaço) e executam os telecomandos, que são as informações necessárias às devidas correções. Toda essa comunicação parte de computadores e antenas terrestres e chega às antenas e computadores embarcados, e vice- -versa.

O controle de atitude, no entanto, é realizado automaticamente do espaço, por meio de uma programação prévia que ocorre antes de o satélite subir. As informações sobre a posição do satélite são capturadas por sensores de estrela, solar, giroscópio, receptor GPS e magnetômetros, que executam essa função por georreferência e, por meio de uma interface com o computador de bordo, enviam os comandos para os atuadores (executores: rodas de reação, propulsores e magnetorquer), os quais, por sua vez, emitem os comandos para correção.

Para manter o satélite em órbita, ele deve ser acelerado de tempos em tempos por um jato de propelente. Em 2011, o então diretor do INPE, Gilberto Câmara, adquiriu o ACDH da INVAP, estatal argentina, pelo valor de R$ 47,5 milhões, para o Amazônia-1, primeira missão baseada na Plataforma Multimissão (PMM).

Houve muitas discordâncias por parte de técnicos e engenheiros do INPE, que à época estavam envolvidos com o projeto nacional de ACDH.

Eles queriam que fossem utilizadas as pesquisas que estavam em andamento. A PMM ainda não voou: a finalização está programada para 2017 e o lançamento para 2019. Ou seja, o subsistema brasileiro poderia ser qualificado hoje, utilizando este satélite, se não tivesse havido tanta pressa para aquisição de uma tecnologia estrangeira.


Fonte: Jornal do SindCT - Edição 43ª - dezembro de 2015