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sábado, 2 de janeiro de 2016

PODERIA TER SIDO O PRIMEIRO FOGUETE-SONDA

primeiro projeto de um foguete de sondagem, genuinamente brasileiro, foi feito 1958"Félix I"

O primeiro projeto de um foguete de sondagem, genuinamente brasileiro, foi feito 1958, pelos alunos de engenharia de armamentos da Escola Técnica do Exército (ETE), hoje Instituto Militar de Engenharia (IME), localizado na Praia Vermelha (RJ).

À frente desse ambicioso projeto estava o Coronel Manoel dos Santos Lage, que contava com a ajuda de vários oficiais professores e pesquisadores da Escola Técnica e fora dela, incluindo o brilhante cientista César Lattes, que desenvolveu os sistemas de comunicação e o experimento que iria ser utilizado para estudo dos Raios Cósmicos e isso em pleno Ano Geofísico Internacional.

Manoel dos Santos Lage nasceu em Santa Maria (RS) em 04 de junho de 1912. Casou muito novo, em 1936, com D. Zilka e teve duas filhas com ela, Helly e Suelena, ambas nascidas no Rio de Janeiro (RJ).


Lage era um homem sedento de conhecimento, embora não fosse um especialista ou um gênio da física, mas era movido pela curiosidade e pela necessidade permanente do experimentar, de trocar ideias, de comunicar, de disseminar informações e conhecimentos, de conhecer de tudo um pouco.
O foguete tinha cerca de 4 metros de comprimento total, 400 mm de diâmetro, massa total de 350 kg, incluindo uma carga útil de 15 kg. O foguete era denominado oficialmente de Projeto F-360-BD, mas o Coronel Lage gostava de chamá-lo de Foguete Sonda I (EB). No final, ficou conhecido mesmo por "Félix I", quando a imprensa descobriu que transportaria um gato. Félix era o nome de um dos gatos que os franceses treinavam para mandar ao espaço depois de 1960. O Brasil antecipava esta façanha, já que mais de 150 animais já haviam sido enviado ao espaço, mas nenhum gato.

                                                                      O Cel. Lage e a câmara de combustão do "Félix I"

O foguete "Félix I" era monoestágio, a propelente sólido, também desenvolvido pelos oficiais químicos da Escola Técnica do Exército e a equipe do Coronel Lage tinha a pretensão de que este foguete atingisse um apogeu de 120 km em 190 segundos. A composição do propelente utilizado no foguete, considerada estratégica para a época, por ter sido desenvolvido por Químicos da ETE, era um propelente sólido homogêneo, de base dupla. 

Especulava-se que na mistura havia, entre outros produtos, a trietilamina (C2H5)3N e o ácido nítrico (HNO3). O Coronel Lage apenas informou que uma parte do propelente seria constituída de pólvora, mas não adiantou mais qualquer informação. O ignitor seria à base de pólvora negra.

A missão previa levar ao espaço, além da aparelhagem científica, o gato "Flamengo", em uma cápsula que voltaria suavemente ao solo, com a utilização de dois paraquedas, quando, na altitude programada, a cápsula fosse liberada da câmara de combustão, que cairia no mar. Havia a previsão de 2 horas de oxigênio para o gato "Flamengo", tempo que computaria o lançamento, retorno ao solo de paraquedas e resgate na praia, que tem cerca de 40 km de extensão, mas para o que seria utilizado pessoal da Aeronáutica como apoio.

Com relação ao sistema de ejeção da câmara onde viajaria o gato “Flamengo” o Coronel Lage detalhou que uma vez o foguete ter atingido a altitude prevista de 120 km , quando acabaria o combustível, a cabine em que viajaria - já naquela altura, o ilustre passageiro gato “Flamengo” se desprenderia automaticamente do resto do foguete, quando seria aberto o primeiro paraquedas, com a finalidade de conter um pouco a queda, mas naquela 
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altitude, sendo “o ar muito rarefeito” este primeiro paraquedas só amenizaria e o segundo paraquedas se abriria quando o gato estivesse a 1.500 metros de altitude, sendo tudo feito por meio de instrumentos e dispositivos automáticos, sem qualquer influência de quem estivesse em solo.

Segundo explicação dada pelo Coronel Lage ao pessoal da imprensa, o mesmo dispositivo que provocaria a separação da cápsula da câmara de combustão seria responsável, por fazer abrir o primeiro paraquedas. O segundo paraquedas estava programado para abrir quando a cápsula estivesse a 1.500 metros de altitude, também através de um mecanismo automático, que funcionaria a partir do comando de um sensor barométrico.
O Coronel Lage ainda informou que na subida este dispositivo não provocaria a abertura do paraquedas, porque para este abrir havia a dependência, não só da altitude, mas também que a cápsula estivesse desacoplada da câmara de combustão.

O foguete "Félix I" acabou ganhando publicidade além da conta e passou a ser citado inclusive em jornais norte americanos e ingleses, infelizmente, em tom de crítica por estar o Exército Brasileiro mandando um felino ao espaço. Na imprensa interna, todo dia tinha novidade a publicar e o projeto ganhou um peso imensamente maior do que um simples projeto acadêmico da turma de 58 de engenharia de armamentos e passou a ser visto como um projeto do Exército, o que criou uma série de atritos e disputas, já que o Coronel Lage não aceitava a interferência externa nesse projeto, que insistia, era apenas didático. Não era assim que todos o viam, mas como possibilidade do Brasil dar um salto no futuro e criar ambiente para, futuramente, competir com as grandes potências no campo espacial.

A coisa tomou tal proporção que, em fevereiro de 1959, a imprensa divulgava que estaria havendo uma pressão de fornecedores do Exército com relação ao projeto, pois não entendiam como o mesmo estaria sendo feito. Acontecia que, com toda a divulgação dada ao “Félix I” pela imprensa carioca, parecia para esses fornecedores que seria uma construção grandiosa e que teriam muito que ganhar com ela. A visão de quem desconhecia o projeto era de que seria algo muito grande e, no caso os fornecedores, queriam saber porque o Exército havia deixado eles de fora. Na realidade, tudo estava sendo construído com recursos próprios e, na avaliação do Coronel Lage, não custaria mais do que 3 mil dólares.
Só para encurtar a história (que pretendo publicar completa em um livro, que se chamará Marambaia) o foguete não voou, o projeto foi abafado e caiu no esquecimento, assim como o Coronel Lage que, em maio de 1961, foi promovido a General de Brigada, com transferência para a Reserva. Foi uma história recheada de idealismo, mas também de vaidades, inveja, autoritarismo e falta de visão e de jogo de cintura para aproveitar um bom momento de apoio do público para investir no desenvolvimento da área espacial.
Somente em 1965 a Aeronáutica utilizando a Avibrás, como contratada, conseguiria lançar o foguete Sonda I, que era muito menor que o "Félix I" e alcançava apenas 70 km de altitude, com uma carga útil de 4,5 kg. O Sonda I era um foguete de dois estágios, tinha 3,95 m de comprimento, massa total de 59 kg e diâmetro máximo de 127 mm (1º estágio).




A Escola Técnica do Exército já havia, em 1958, produzido e lançado com sucesso um foguete balístico de 2 estágios, comprimento de 1,80 metros e diâmetro de 114 mm, com alcance de 30 km e pasmem, somente com recursos internos de professores e alunos.